Reduzir desmatamento traz benefícios ambientais sem onerar consumidor
Os resultados indicam que carnes com diferentes níveis de desmatamento associado chegam às prateleiras com preços semelhantes.
Se você é consumidor de carne bovina, uma descoberta importante acaba de ser publicada na revista científica The Lancet Planetary Health. Um estudo com participação da USP e de quatro instituições internacionais mostrou que a produção de carne em áreas desmatadas não barateia o produto para o consumidor.
Os resultados indicam que carnes com diferentes níveis de desmatamento associado chegam às prateleiras com preços semelhantes. Fatores como tipo de corte, nível de inspeção sanitária e distância entre o frigorífico e o varejista têm muito mais influência sobre o preço final.
Como o estudo foi feito
A equipe analisou quase 3 mil produtos de carne bovina vendidos em supermercados de São Paulo, Santa Catarina, Pernambuco, Mato Grosso do Sul e Acre. Para isso, rastreou os cortes até os frigoríficos de origem e estimou a pegada de desmatamento por meio de dados de movimentação de gado e sensoriamento remoto.
Em seguida, comparou os preços encontrados nas etiquetas, considerando as características dos produtos, frigoríficos e supermercados.
"Nossa análise incluiu dados de 2.980 produtos de carne bovina, sendo 1.844 (62%) inspecionados pelo sistema federal, 1.214 (41%) processados por frigoríficos com compromissos de monitoramento da cadeia de suprimentos e 1.579 (53%) provenientes da Amazônia Legal", detalharam os pesquisadores.
O que os resultados mostram
" Nosso estudo mostra que combater o desmatamento não acontecerá às custas dos consumidores", diz Jacqueline Tereza da Silva, pesquisadora na Universidade Católica da Lovaina (Bélgica) e autora do estudo. "Vimos que, atualmente, a carne associada ao desmatamento é vendida lado a lado na prateleira e com um preço semelhante ao da carne com baixo desmatamento."
Ela explica que os dados contestam argumentos contrários à redução do desmatamento na cadeia de produção bovina, tradicionalmente baseados na ideia de que práticas de produção com menor impacto ambiental podem encarecer os produtos.
"O consumidor que compra carne bovina com origem conhecida e sem ligação ao desmatamento não paga mais caro e ainda incentiva uma produção mais sustentável", afirma.
O que encarece a carne
A produção de carne sem desmatamento pode exigir investimentos em máquinas, fertilizantes, manejo de pastagens e sistemas de monitoramento mais precisos. Ainda assim, o estudo mostra que o equilíbrio nos preços que chegam aos consumidores acontece ao longo do caminho entre os pastos e os supermercados.
"O mais provável é que atores intermediários da cadeia de suprimentos, como frigoríficos, atacadistas e varejistas, capturem a maior parte do valor agregado; esses atores intermediários fazem o elo entre os produtores rurais e os mercados", comenta Jacqueline Silva.
A equipe estima que eliminar o desmatamento da cadeia de produção teria impacto limitado sobre os preços da carne bovina: o aumento seria de cerca de 3,5%, abaixo da inflação de 6,5% registrada para o produto nos últimos anos.
O impacto maior sobre os preços finais parece estar relacionado a fatores como inspeção sanitária, tipo de corte e distância entre frigorífico e varejista.
Benefícios ambientais
Ao mesmo tempo, a redução do desmatamento poderia trazer benefícios ambientais, como o auxílio na preservação da biodiversidade, a diminuição das emissões de gases de efeito estufa e da poluição por fumaça, além da redução de eventos climáticos extremos.
"As preocupações com o poder de compra e a segurança alimentar, portanto, não justificam a inércia no combate ao desmatamento", diz a autora.
Transparência para o consumidor
Os pesquisadores pretendem contribuir para ampliar a transparência sobre a origem, o desempenho socioambiental e os preços da carne bovina, com o intuito de estimular a escolha de produtos com menor impacto ambiental.
"Nossa próxima pesquisa investigará qual é a melhor maneira de informar os consumidores sobre o risco de desmatamento da carne e como essa informação pode influenciar a decisão de compra", afirma a pesquisadora.
Ela cita que a iniciativa "do Pasto ao Prato" já faz parte desse caminho, auxiliando consumidores a identificarem a origem da carne disponível nos supermercados por meio do escaneamento do código de barras ou da inserção do número de inspeção sanitária.
O potencial do Brasil
A autora finaliza destacando a relevância do País na produção de gado. "O Brasil possui um enorme potencial inexplorado para a produção sustentável de carne bovina; temos capacidade de triplicar a produção sem desmatar."
Na América do Sul, onde a expansão da pecuária causa 70% do desmatamento, no Brasil a atividade representa 57% das emissões totais de gases do efeito estufa.
"A falta de transparência e de diferenciação entre a carne bovina produzida por pecuaristas que praticam desmatamento ilegal e a produzida por aqueles que adotam práticas sustentáveis impede que os incentivos de mercado recompensem a produção sustentável, o que pode dificultar a transição para um setor pecuário livre de desmatamento. O desmatamento ainda é lucrativo", ponderam os autores do artigo.
🔧 Orientação:
Se você é produtor de carne bovina, o estudo traz uma mensagem importante: a produção sustentável, sem desmatamento, não precisa ser mais cara para o consumidor. Isso significa que investir em práticas responsáveis pode ser uma vantagem competitiva, especialmente se o mercado valorizar cada vez mais a transparência e a origem dos produtos.
Além disso, a pesquisa reforça a importância de diferenciar a carne produzida de forma sustentável daquela associada ao desmatamento ilegal. Essa diferenciação pode abrir portas para mercados mais exigentes e agregar valor à sua produção.
Se você é produtor, invista em rastreabilidade e transparência na sua cadeia produtiva. Documente a origem do gado e as práticas adotadas na propriedade. Isso pode ser um diferencial na hora de negociar com frigoríficos e varejistas.
Acompanhe as iniciativas de monitoramento e certificação que valorizam a produção sustentável. E fique atento às exigências do mercado consumidor, que está cada vez mais atento à origem dos alimentos.
Resumo prático:
- Estudo da USP e instituições internacionais mostra que carne de área desmatada não é mais barata.
- Preços são influenciados por tipo de corte, inspeção sanitária e distância, não pelo desmatamento.
- Eliminar o desmatamento teria impacto de apenas 3,5% nos preços, abaixo da inflação do setor.
- Intermediários da cadeia capturam a maior parte do valor agregado.
- Produtor sustentável pode se beneficiar da transparência e da diferenciação no mercado.
Fonte: USP.