Pecuária

Cruzamentos e melhoramento genético para quem cria a pasto

Cruzamento industrial: o que muda no rebanho?

Redação Agriconline
Equipe editorial
3 min de leitura
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O cruzamento industrial consiste em acasalar animais de raças diferentes para combinar características desejáveis. Na pecuária de corte brasileira, uma estratégia bastante conhecida é utilizar touros Angus sobre vacas Nelore. A ideia é aproveitar características como potencial de crescimento e qualidade de carcaça dos taurinos, mantendo parte da adaptação ao ambiente tropical proporcionada pelo Nelore.

O resultado, porém, não depende apenas da raça do touro. A genética da vaca, a produção de leite, a habilidade materna, o peso ao nascimento dos bezerros e a disponibilidade de forragem também interferem no desempenho.

Um estudo publicado em 2019 na revista Translational Animal Science, com dados de 175 vacas de diferentes grupos genéticos criadas no Sul do Brasil, identificou efeitos favoráveis da heterose nos cruzamentos entre taurinos e zebuínos. Em geral, as fêmeas cruzadas apresentaram maior peso adulto, produção de leite e peso dos bezerros à desmama. Os pesquisadores também estimaram maior consumo de energia, mostrando que o potencial produtivo precisa ser analisado junto com a exigência nutricional. (Mendonça et al., 2019)

Esse detalhe tem importância econômica. Uma vaca que desmama um bezerro mais pesado pode ser vantajosa, mas precisa produzir e permanecer no rebanho sem comprometer a condição corporal e a reprodução. Se a pastagem não sustenta suas exigências, o ganho esperado com a genética pode desaparecer em forma de atraso na concepção, menor desempenho dos bezerros ou aumento dos custos de suplementação.

Heterose: por que o cruzamento pode melhorar o desempenho?

A heterose, também conhecida como vigor híbrido, é a superioridade que animais cruzados podem apresentar em relação à média dos grupos genéticos que lhes deram origem. Ela pode beneficiar características como fertilidade, sobrevivência, crescimento e habilidade materna, embora a magnitude do efeito varie conforme o cruzamento, a característica e o ambiente.

Um estudo brasileiro publicado na Revista Brasileira de Zootecnia analisou dados de 17.796 bovinos Angus × Nelore, provenientes de 50 rebanhos de diferentes estados. Os autores estimaram heterose individual de 9,10%, equivalente a 13,31 kg, e heterose materna de 15,46%, equivalente a 22,62 kg, para o ganho de peso do nascimento à desmama. (Artigo na Revista Brasileira de Zootecnia, 2000)

Esses valores mostram o potencial do cruzamento, mas precisam ser interpretados corretamente. São estimativas obtidas em uma população específica, com dados históricos e condições de manejo variadas. Não significam que todo bezerro Angus × Nelore será automaticamente 13 kg mais pesado, nem que o produtor terá o mesmo resultado em qualquer fazenda.

A heterose também não substitui a seleção genética. Cruzar animais sem critérios pode produzir bezerros maiores, mas também aumentar problemas de parto, exigência nutricional ou dificuldade de adaptação. O objetivo é combinar genética e ambiente de modo que o ganho de desempenho resulte em mais rentabilidade.

Como escolher o cruzamento para a realidade da fazenda

Antes de definir a raça do touro, o produtor precisa estabelecer qual resultado deseja melhorar. Uma propriedade voltada à produção de bezerros para venda pode priorizar fertilidade das matrizes, facilidade de parto, habilidade materna e peso à desmama. Já uma fazenda que pretende produzir animais para abate pode dar mais peso ao ganho diário, à idade de terminação e às características de carcaça.

Angus sobre Nelore

É uma alternativa utilizada para combinar o potencial de crescimento e as características de carcaça do Angus com a adaptação do Nelore. O resultado depende da qualidade genética dos reprodutores, do ambiente e do manejo nutricional. Em regiões muito quentes ou com limitações de pastagem durante a seca, é essencial avaliar se o sistema consegue atender às exigências dos animais cruzados.

Touros adaptados e cruzamentos com raças tropicais

Em ambientes nos quais o calor, os parasitas e a oscilação na oferta de forragem são desafios importantes, raças adaptadas e compostos genéticos podem ser alternativas interessantes. O Caracu, por exemplo, foi avaliado em estudos brasileiros de cruzamento com Angus e apresentou características que podem contribuir para determinados sistemas de produção, inclusive em relação à produção de leite das matrizes.

Em pesquisa publicada na Translational Animal Science, os animais cruzados, incluindo grupos com participação de Caracu, Angus e Nelore, apresentaram diferenças de desempenho conforme a composição genética. Os resultados reforçam que a escolha deve considerar tanto a contribuição de cada raça quanto a adaptação às condições em que os animais serão criados. (Mendonça et al., 2018)

Não existe, portanto, uma raça universalmente superior. A escolha depende do clima, da disponibilidade de alimento, do mercado comprador e da estrutura da propriedade.

O pasto precisa acompanhar a genética

A genética estabelece parte do potencial de desempenho, mas o animal só consegue expressá-lo quando recebe condições adequadas. Em sistemas a pasto, isso significa manter quantidade e qualidade de forragem suficientes durante o ano, planejar a suplementação e ajustar a lotação à capacidade produtiva da área.

Um estudo publicado na revista Semina: Ciências Agrárias avaliou 91 bovinos Angus, Hereford, Caracu, Nelore e seus cruzamentos, divididos entre pastagem natural e campo natural melhorado. O ambiente influenciou todas as características avaliadas, e os melhores resultados de desempenho foram observados no campo melhorado. Também houve interação entre grupo genético e ambiente para ganho médio diário e peso aos 12 meses. (Cardoso, Biegelmeyer e Cardoso, 2017)

A conclusão é importante para quem pretende investir em genética: o desempenho de um grupo genético pode mudar conforme a pastagem e o manejo. Um animal que apresenta excelentes resultados em uma área com oferta regular de forragem pode não repetir o mesmo desempenho em uma fazenda com pasto degradado ou forte restrição alimentar na seca.

Na prática, antes de aumentar a proporção de sangue taurino no rebanho, avalie a capacidade de suporte das pastagens, a duração do período seco, a disponibilidade de água, a necessidade de suplementação e a condição corporal das matrizes. Melhorar a alimentação pode ser tão importante quanto trocar o reprodutor.

Seleção genética: não escolha o touro apenas pelo peso

O cruzamento combina raças; a seleção genética escolhe, dentro de uma população, os animais que apresentam características desejáveis para reprodução. As duas ferramentas podem ser usadas em conjunto.

Ao comprar um touro, observe os dados de avaliação genética disponíveis, como diferenças esperadas na progênie (DEPs), que estimam a contribuição genética do reprodutor para determinadas características. O significado de cada DEP depende da característica avaliada e da base de comparação do programa. Por isso, valores de programas diferentes nem sempre podem ser comparados diretamente.

Para sistemas de cria a pasto, vale observar características ligadas à fertilidade, ao peso ao nascimento, ao peso à desmama, ao crescimento, à habilidade materna e à permanência produtiva das fêmeas. Para sistemas que também realizam recria e engorda, características relacionadas ao ganho de peso e à carcaça podem ganhar importância.

A escolha precisa considerar o conjunto. Um touro com alto potencial para peso à desmama pode não ser a melhor opção para novilhas de primeira cria se houver risco elevado de bezerros pesados ao nascimento. Da mesma forma, selecionar apenas para crescimento pode aumentar o tamanho adulto das matrizes e elevar a exigência de manutenção do rebanho.

O objetivo não é produzir o maior animal possível, mas o animal mais rentável dentro do sistema.

Como organizar um programa de cruzamento na fazenda

Um programa de melhoramento não começa com a compra do touro: começa com registros. Anote a identificação das matrizes, os acasalamentos, as datas de nascimento, o peso à desmama, a ocorrência de problemas de parto, o desempenho reprodutivo e os motivos de descarte.

Com esses dados, fica mais fácil identificar quais vacas desmamam bezerros mais pesados de forma consistente, quais emprenham dentro da estação de monta e quais permanecem produtivas mesmo em períodos de maior restrição alimentar.

Também é importante planejar a reposição das fêmeas. Em sistemas de cruzamento, nem todo animal cruzado deve ser destinado ao abate; parte pode ser utilizada na reprodução, desde que o esquema genético e as características das matrizes sejam adequados. O produtor precisa decidir se utilizará cruzamento terminal, rotacionado ou outro sistema, considerando a estrutura do rebanho e a disponibilidade de touros.

No cruzamento terminal, por exemplo, os bezerros resultantes são destinados à produção de carne, e as fêmeas de reposição vêm de outro grupo de matrizes. No cruzamento rotacionado, raças de touros são alternadas ao longo das gerações para manter parte da heterose, exigindo controle dos acasalamentos e planejamento da reposição.

A estratégia mais simples de executar corretamente costuma ser mais vantajosa do que um esquema complexo que a fazenda não consegue controlar.

Genética e rentabilidade: avalie o resultado por hectare

O peso individual do bezerro é apenas uma parte da conta. Para avaliar se o melhoramento está funcionando, acompanhe também a taxa de prenhez, a taxa de desmama, a mortalidade, o peso dos bezerros à desmama, a idade ao primeiro parto, o intervalo entre partos e a quantidade de quilos produzidos por hectare.

Imagine duas fazendas que desmamam bezerros de pesos diferentes. A primeira produz bezerros mais pesados, mas tem menor taxa de desmama e precisa gastar mais com suplementação. A segunda desmama animais um pouco mais leves, porém mantém mais vacas produzindo bezerros e utiliza melhor a área de pastagem. Sem analisar todos os indicadores e os custos, não é possível afirmar qual sistema é mais rentável.

O mesmo vale para a escolha entre raças. A genética deve ser avaliada pelos resultados econômicos que entrega nas condições reais da propriedade, e não apenas pelo desempenho máximo registrado em um experimento ou divulgado em um catálogo.

O que fazer antes da próxima estação de monta?

Revise os dados das últimas safras e defina qual característica precisa melhorar primeiro. Se o problema é baixa taxa de desmama, a prioridade pode estar na fertilidade das matrizes e no manejo reprodutivo. Se os bezerros desmamam leves, é necessário investigar a genética, a produção de leite das vacas, a disponibilidade de forragem e a sanidade. Se o custo de manutenção das matrizes é alto, vale avaliar o tamanho adulto, a condição corporal e a eficiência reprodutiva.

Com o objetivo definido, escolha touros com avaliações genéticas confiáveis e características compatíveis com o rebanho. Planeje os acasalamentos, registre os resultados e evite mudar todo o sistema com base em uma única safra.

Orientação prática: para quem cria gado a pasto, o melhor cruzamento é aquele que combina desempenho, adaptação e fertilidade sem ultrapassar a capacidade de alimentação da fazenda. Comece identificando o principal gargalo do rebanho, melhore o manejo das pastagens e use os registros produtivos para orientar a seleção. A genética oferece potencial; é o conjunto do sistema que transforma esse potencial em resultado econômico.

Referências técnicas

  • MENDONÇA, F. S. et al. Crossbreeding effects on growth and efficiency in beef cow-calf systems: evaluation of Angus, Caracu, Hereford and Nelore breed direct, maternal and heterosis effects. Translational Animal Science, 2019. Acessar artigo.

  • Avaliação das heteroses materna e individual sobre o ganho de peso do nascimento ao desmame em bovinos Angus × Nelore. Revista Brasileira de Zootecnia, 2000. Acessar artigo.

  • MENDONÇA, F. S. et al. Direct and maternal breed additive and heterosis effects on growth traits of beef cattle raised in southern Brazil. Journal of Animal Science, 2018. Acessar artigo.

  • CARDOSO, L. L.; BIEGELMEYER, P.; CARDOSO, F. F. Genotype × environment interaction on post-weaning performance and carcass in beef cattle. Semina: Ciências Agrárias, 2017. Acessar artigo.

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