Proteína é o Hype do Mercado
Alimentos ricos em proteína ganham espaço, mas especialistas alertam: nem sempre são saudáveis
Os produtos ricos em proteína são vendidos como uma forma de manter uma alimentação saudável e os músculos em dia. Os mais diversos itens nos gondolas do supermercado destacam em cores chamativas informações nutricionais que prometem ajudar na forma física.
Segundo o relatório do Global Wellness Institute, o mercado de bem-estar deve movimentar cerca de US$ 10 trilhões em 2029. Para comparação, em 2022, era de US$ 5,48 trilhões. Os alimentos que funcionam como um suplemento fazem parte desse setor, e a oferta está em expansão.
"Esse mercado é muito grande e cresce cada vez mais, e tudo o que está atrelado a ele cresce na mesma esteira puxada pelos mesmos motivos. Não é um fenômeno só do Brasil, é mundial", afirma Flávio Bizzarrias, pesquisador e coordenador do CEAM (Centro de Estudos Aplicados em Marketing), da ESPM.
A crescente demanda impulsionou o surgimento de empresas, o lançamento de produtos e versões enriquecidas de itens convencionais. A engenharia de alimentos consegue aliar o sabor e a tabela nutricional para agradar a esse exigente público.
"É possível incluir proteínas e aumentar o teor proteico de uma ampla variedade de alimentos industrializados, desde que isso seja permitido pela regulamentação específica daquela categoria", explica Tatiana Tribess, professora de Engenharia de Alimentos do Instituto Mauá de Tecnologia.
O desafio é técnico: a adição de proteínas pode alterar sabor e textura. "Não basta simplesmente aumentar o teor proteico, é necessário manter sua qualidade e aceitação pelo consumidor", afirma Tatiana.
Novos hábitos
Os grandes potes vendidos em lojas de suplementos deixaram de ser o único caminho para quem quer reforçar a proteína na dieta. As barrinhas foram as primeiras a fazer sucesso e, hoje, itens que não têm relação com uma vida fitness, como cerveja, refrigerante, salgadinho e macarrão instantâneo, são vendidos como saudáveis.
"As pessoas não têm mais um momento para consumir aquele alimento rico em tal proteína, em tal nutriente. E o tempo todo. Estou na fila do supermercado e tenho uma barrinha de proteína à mão. Estou no trabalho e tenho uma bebida proteica do meu lado", diz Elizvio.
O aumento do consumo de proteína está associado a hábitos saudáveis, porém nem sempre é necessário. "A prática de atividade física voltada à manutenção da saúde não implica, por si só, a necessidade de suplementação proteica", diz Manuela Dolinsky, presidente do Conselho Federal de Nutrição.
Segundo Manuela, alimentar-se de forma variada e equilibrada já é suficiente para fornecer os nutrientes de que o corpo necessita para a manutenção da saúde. "Uma alimentação baseada principalmente em alimentos in natura e minimamente processados, conforme orienta o Guia Alimentar para a População Brasileira, pode fornecer a energia, as proteínas e os demais nutrientes necessários", explica.
Rótulos e vendas
O whey protein costumava fazer parte da rotina só de atletas de alta performance ou daqueles que buscavam um corpo definido e volumoso. Agora o produto é consumido por um público muito mais heterogêneo e, muitas vezes, iniciante nas atividades físicas.
O crescimento nas vendas pode ser comparado à trajetória dos produtos zero açúcar no mercado nacional. Uma parcela dos consumidores entendeu que é bom ingerir menos açúcar e passou a substituir a versão tradicional com o objetivo de ter hábitos saudáveis.
Esse sucesso, porém, exige atenção ao que está estampado nas embalagens. Segundo a Anvisa, os produtos considerados "fonte de proteína" devem conter no mínimo 5g de proteína por porção de referência. Já aqueles de "alto conteúdo de proteína" devem conter no mínimo 10 g.
O rótulo interfere na decisão do consumidor e, por isso, muitas empresas passaram a destacar algumas informações nutricionais para demonstrar alguma vantagem que vá além do preço e da marca. Nos mais diferentes produtos, a quantidade de proteína em gramas virou destaque na embalagem.
"Está crescendo o público que, no meio do dia de trabalho, pega uma barrinha ou toma uma bebida carregada de algum nutriente. E esse público precisa das informações destacadas no rótulo de maneira mercadológica e não do ponto de vista nutricional", diz o pesquisador da ESPM ao comentar como a indústria se comunica com o consumidor.
Essa estratégia de marketing está relacionada a uma mudança de comportamento da população, que tem praticado mais exercícios, se preocupado mais com o corpo e prestado mais atenção ao que come.
"O teor de proteína vem ganhando relevância como atributo de escolha para consumidores em mercados como Estados Unidos, Alemanha e Austrália. No Brasil, observamos movimento semelhante, com o crescimento de produtos proteicos em categorias muito diversas, incluindo bebidas, lácteos, snacks e produtos de conveniência", diz a professora do Instituto Mauá de Tecnologia.
É saudável?
Consumir proteína em excesso não traz benefícios adicionais e pode fazer mal à saúde. O ideal é que um nutricionista avalie as necessidades e os objetivos de cada paciente para definir a alimentação e indicar se vale a pena suplementar.
Para adultos, um parâmetro frequentemente adotado é de aproximadamente 0,8 grama de proteína por quilograma de peso corporal ao dia. Entretanto, esse número representa uma referência e não deve ser interpretado como uma prescrição individual nem aplicado isoladamente.
De maneira geral, não é recomendável aumentar substancialmente a ingestão de proteínas ou utilizar suplementos de forma continuada sem avaliação profissional. "Os possíveis efeitos de uma ingestão elevada variam de acordo com a quantidade consumida, o tempo de exposição e as condições de saúde da pessoa. Indivíduos com doenças renais, hepáticas ou outras condições clínicas exigem atenção especial", orienta a nutricionista.
Um profissional deve montar a dieta adequada para o objetivo de cada um, acompanhar os resultados e reavaliar a necessidade de manter a suplementação. Essa é uma forma de reduzir riscos, evitar gastos desnecessários e garantir um acompanhamento individualizado.
"O aumento do consumo de proteína não está necessariamente ligado a melhores resultados na academia ou na prática esportiva", diz Manuela.
Se você é produtor rural, pode estar se perguntando o que essa febre de proteína tem a ver com a sua atividade. A resposta é: tudo.
O crescimento do mercado de alimentos ricos em proteína abre oportunidades para quem produz leite, ovos, carne, soja e outras fontes proteicas. A indústria precisa de matéria-prima de qualidade para atender essa demanda crescente.
Além disso, se você consome esses produtos, é importante saber o que está comprando. Nem tudo que está na prateleira é saudável só porque diz "rico em proteína".
🔧 Orientações:
1. Se você produz alimentos proteicos, fique atento às oportunidades. O mercado de bem-estar está em expansão. Leite, ovos, carne e soja são matérias-primas para produtos proteicos industrializados.
2. Invista em qualidade. A indústria precisa de matéria-prima com teor proteico adequado e padrão consistente. Invista em manejo e nutrição animal para garantir isso.
3. Se você consome produtos proteicos, leia o rótulo. A Anvisa exige no mínimo 5g de proteína por porção para produtos "fonte de proteína" e no mínimo 10g para "alto conteúdo de proteína". Confira antes de comprar.
4. Não acredite em promessas milagrosas. Consumir proteína em excesso não traz benefícios adicionais e pode fazer mal à saúde. O ideal é uma alimentação variada e equilibrada.
5. Procure orientação profissional. Se você quer suplementar, consulte um nutricionista. Ele vai avaliar suas necessidades e indicar a melhor estratégia.
6. Fique de olho na regulamentação. A Anvisa define as regras para rotulagem de produtos proteicos. Acompanhe as atualizações para não ser pego de surpresa.
O que esperar dos próximos anos
O mercado de proteína deve continuar crescendo. A tendência é que mais produtos sejam lançados e que a concorrência aumente.
Para o produtor rural, isso significa mais demanda por matérias-primas proteicas. Para o consumidor, significa mais opções nas prateleiras — e mais necessidade de ler os rótulos com atenção.
O importante é estar informado e fazer escolhas conscientes, seja na produção ou no consumo.
- Mercado: bem-estar deve movimentar US$ 10 trilhões em 2029.
- Produtos: barrinhas, bebidas, cerveja, refrigerante, salgadinho e macarrão instantâneo ganham versões proteicas.
- Anvisa: "fonte de proteína" exige no mínimo 5g por porção; "alto conteúdo" exige no mínimo 10g.
- Saúde: consumo em excesso não traz benefícios adicionais e pode fazer mal.
- Recomendação: alimentação variada e equilibrada é suficiente para a maioria das pessoas.
- Próximos passos: ler rótulos, buscar orientação profissional e aproveitar oportunidades de mercado.
Fonte: Forbes.