Ureia, nitrato ou sulfato de amônio: qual escolher?
A recomendação também muda conforme a cultura, o estádio de desenvolvimento e a dose de nitrogênio necessária.
Na adubação nitrogenada, escolher a fonte certa pode fazer diferença no custo por hectare e na quantidade de nitrogênio que realmente fica disponível para a cultura. A ureia costuma se destacar pela alta concentração de N e pelo custo por unidade do nutriente. O nitrato de amônio oferece nitrogênio em duas formas químicas, enquanto o sulfato de amônio combina nitrogênio e enxofre. Cada fertilizante tem vantagens e limitações, e nenhum deles é a melhor opção para todas as situações.
Para decidir, o produtor precisa olhar além do preço da tonelada. O tipo de solo, a umidade, a forma de aplicação, a necessidade de enxofre e a possibilidade de chuva após a adubação interferem no aproveitamento do fertilizante. A recomendação também muda conforme a cultura, o estádio de desenvolvimento e a dose de nitrogênio necessária.
Quanto nitrogênio cada fertilizante fornece?
As três fontes são usadas para fornecer nitrogênio, nutriente essencial à formação de proteínas, enzimas, clorofila e tecidos vegetais. A diferença começa na concentração do nutriente e na forma química em que ele está presente.
A ureia comercial geralmente contém cerca de 45% a 46% de nitrogênio. O sulfato de amônio costuma apresentar aproximadamente 21% de N e 23% a 24% de enxofre, enquanto o nitrato de amônio pode apresentar cerca de 33% a 35% de N, dependendo da formulação. Esses valores devem ser confirmados na garantia do produto comprado. A Embrapa apresenta concentrações próximas a 45% para ureia e 21% de N e 23% de S para sulfato de amônio.
A diferença de concentração afeta a quantidade de fertilizante necessária para fornecer a mesma dose de nitrogênio.
Imagine uma recomendação de 100 kg de N por hectare. Considerando produtos com 46% de N na ureia, 21% no sulfato de amônio e 33% no nitrato de amônio, o cálculo fica assim:
Fonte nitrogenada | Teor de N considerado | Produto necessário para fornecer 100 kg de N |
|---|---|---|
Ureia | 46% | 217 kg/ha |
Nitrato de amônio | 33% | 303 kg/ha |
Sulfato de amônio | 21% | 476 kg/ha |
Os valores são exemplos calculados a partir das concentrações indicadas, não uma recomendação de dose para uma cultura específica. A quantidade final deve seguir a análise, a recomendação agronômica e a garantia do fertilizante utilizado.
Essa diferença também interfere na logística. Para transportar e distribuir a mesma quantidade de nitrogênio, o sulfato de amônio exige mais massa de produto do que a ureia. Por outro lado, ele fornece enxofre junto com o N, o que pode reduzir a necessidade de adquirir esse nutriente separadamente quando há demanda da lavoura.
Ureia: alta concentração e atenção à volatilização
A ureia é uma das fontes nitrogenadas mais utilizadas na agricultura brasileira, em parte pela concentração elevada de N e pela facilidade de transporte e aplicação. Em condições adequadas de manejo, pode apresentar bom desempenho agronômico e econômico.
Seu principal ponto de atenção é a volatilização de amônia, processo pelo qual parte do nitrogênio aplicado pode passar para a atmosfera. Quando a ureia entra em contato com a água, começa a ser transformada pela enzima urease. Essa reação pode elevar temporariamente o pH ao redor do grânulo e favorecer a formação de amônia gasosa, especialmente quando o fertilizante permanece na superfície do solo.
O risco depende das condições de aplicação. Temperaturas elevadas, resíduos vegetais na superfície, solo com pH alto e ausência de chuva ou irrigação suficiente para levar a ureia para dentro do solo podem favorecer perdas. A palhada do plantio direto, por exemplo, pode aumentar o contato do fertilizante com resíduos que apresentam atividade de urease.
Em estudo publicado na Pesquisa Agropecuária Brasileira, Santos e colaboradores avaliaram fontes nitrogenadas aplicadas superficialmente em milho, na dose de 150 kg de N/ha, durante duas safras no semiárido de Sergipe. A ureia comercial apresentou as maiores perdas por volatilização, enquanto o sulfato de amônio apresentou as menores. A ureia organomineral avaliada reduziu as perdas em 74% e 67%, em comparação à ureia convencional, nos dois anos do estudo. O rendimento de grãos, porém, não acompanhou de forma direta as diferenças de volatilização.
Esse resultado mostra dois pontos importantes. Primeiro, a fonte e o manejo interferem na quantidade de N perdida. Segundo, medir a volatilização não é o mesmo que medir produtividade: a resposta da cultura depende também da disponibilidade de água, do potencial produtivo e de outros fatores limitantes.
Quando a ureia for aplicada em cobertura, vale acompanhar a previsão do tempo e a recomendação específica para a cultura. Chuva ou irrigação suficiente logo após a aplicação pode ajudar a deslocar o fertilizante para o solo e reduzir a exposição superficial. Uma chuva fraca, por outro lado, pode não ser suficiente para incorporar a ureia e ainda favorecer sua dissolução e reação na superfície. Não existe um volume único de chuva que funcione da mesma forma em todos os solos.
A ureia tratada com inibidor de urease, como o NBPT, também pode ser uma alternativa quando o manejo dificulta a incorporação. Entretanto, o efeito depende da formulação, das condições ambientais e do período entre aplicação e entrada do fertilizante no solo. O aditivo reduz o risco, mas não elimina todas as possibilidades de perda.
Nitrato de amônio: duas formas de nitrogênio
O nitrato de amônio fornece N nas formas amoniacal (NH₄⁺) e nítrica (NO₃⁻). Essa característica permite que a cultura tenha acesso a duas formas absorvíveis, cujo comportamento no solo é diferente.
O amônio apresenta carga positiva e pode ficar retido temporariamente nas cargas negativas dos coloides do solo. Já o nitrato tem carga negativa e, em geral, permanece mais móvel na solução do solo. Por isso, em períodos de chuva intensa ou irrigação excessiva, o nitrato pode ser transportado para camadas mais profundas, especialmente em solos com baixa retenção de água e nutrientes.
Uma vantagem importante do nitrato de amônio é o menor potencial de volatilização de amônia em muitas condições de uso, quando comparado à ureia aplicada na superfície. Isso não significa que a fonte esteja livre de perdas: o nitrato continua sujeito à lixiviação e, em ambientes com pouco oxigênio, pode participar de processos como a desnitrificação.
Um estudo de campo publicado no Soil Science Society of America Journal comparou ureia com outras fontes nitrogenadas aplicadas na superfície, sem incorporação. Após 34 dias, as perdas de N por volatilização foram de 46% para a ureia, enquanto o nitrato de amônio não foi o tratamento principal desse estudo específico; as fontes com sulfato de amônio apresentaram perdas entre 14% e 17%. O trabalho reforça que a fonte química pode alterar bastante o risco de volatilização, mas os números não devem ser transferidos diretamente para qualquer solo ou sistema de cultivo.
Na prática, o nitrato de amônio pode ser considerado quando a estratégia de manejo exige reduzir a exposição ao risco de volatilização da ureia, desde que o custo por unidade de N, a disponibilidade do produto e o risco de lixiviação sejam avaliados. A escolha deve respeitar as regras de comercialização, armazenamento e uso aplicáveis ao fertilizante.
Sulfato de amônio: quando o enxofre também entra na conta
O sulfato de amônio fornece nitrogênio amoniacal e enxofre na forma de sulfato. Essa combinação pode ser útil em sistemas nos quais a cultura apresenta demanda pelos dois nutrientes ou em áreas onde a análise e o histórico de manejo indicam risco de deficiência de enxofre.
O enxofre participa da formação de aminoácidos e proteínas e tem papel importante no metabolismo das plantas. Quando a lavoura precisa de N e S, o sulfato de amônio pode fornecer ambos em uma única operação. Porém, sua concentração de N é menor do que a da ureia, de modo que são necessárias quantidades maiores de produto para atender à mesma dose nitrogenada.
Outra característica é o menor potencial de volatilização em muitas condições de solo, especialmente quando comparado à ureia aplicada superficialmente. Ainda assim, não é correto afirmar que o sulfato de amônio nunca perde nitrogênio por volatilização. O pH do solo e as condições de aplicação também importam.
Uma revisão publicada na revista Soil Use and Management reuniu 41 publicações de 16 países sobre perdas de amônia provenientes do sulfato de amônio. Nos experimentos de campo em solos com pH em água abaixo de 7, as perdas foram, na maioria dos casos, inferiores a 5% do N aplicado. Em solos com pH acima de 7, os resultados variaram de 0% a 66%, com muitos estudos registrando perdas entre 20% e 40%. Os autores também identificaram indícios de aumento do risco em alguns solos com pH entre 6,5 e 7,0.
Esses dados mostram por que o pH precisa entrar na avaliação. O sulfato de amônio pode ser uma alternativa interessante para reduzir a volatilização em determinadas situações e fornecer enxofre, mas não deve ser escolhido apenas com base nessa característica.
Também é necessário considerar o efeito acidificante do uso continuado dessa fonte. Em sistemas com aplicações frequentes e doses elevadas, o manejo deve acompanhar a evolução da acidez do solo e a necessidade de calagem. A decisão deve ser tomada com base em análise de solo e planejamento de médio prazo, não apenas na resposta imediata da cultura.
Qual fonte perde menos nitrogênio?
Não há uma resposta universal. O resultado depende da fonte, da dose, da forma de aplicação, do pH, da umidade, da temperatura, dos resíduos vegetais e do regime de chuvas.
Uma pesquisa publicada na Plants avaliou perdas por volatilização em cafeeiro durante duas safras. Nas condições desse experimento, a ureia convencional apresentou perda média de 23,7% do N aplicado; a ureia com NBPT, 14,5%; o sulfato de amônio, 0,6%; e o nitrato de amônio, 0,5%. A ureia dissolvida em água apresentou perda de 4,2%. Os resultados são específicos do experimento e não devem ser tratados como percentuais fixos para outras culturas ou regiões.
A pesquisa ajuda a ilustrar a importância do manejo, mas não significa que nitrato de amônio e sulfato de amônio sempre terão perdas próximas de zero. Em outras condições, principalmente em solos alcalinos, as perdas de amônia podem aumentar. O nitrato também pode ser perdido por lixiviação, e o nitrogênio pode ser perdido por outras rotas, como a desnitrificação.
Por isso, a pergunta mais útil não é apenas “qual fertilizante perde menos?”, mas “qual fonte atende à necessidade da cultura com menor custo e risco nas condições desta área?”.
Como comparar o custo real por hectare
Comparar o preço por tonelada pode levar a uma conclusão errada, porque cada produto tem concentração diferente de N e pode fornecer nutrientes adicionais. Uma forma inicial de comparação é calcular o custo por quilograma de nitrogênio.
A fórmula é:
Custo por kg de N = preço por tonelada ÷ quantidade de N por tonelada
Considere um exemplo hipotético, com preços apenas ilustrativos:
Fertilizante | Teor de N | Preço hipotético por tonelada | Custo aproximado por kg de N |
|---|---|---|---|
Ureia | 46% | R$ 2.800 | R$ 6,09 |
Nitrato de amônio | 33% | R$ 3.000 | R$ 9,09 |
Sulfato de amônio | 21% | R$ 2.000 | R$ 9,52 |
Nesse cenário, a ureia apresenta menor custo nominal por quilograma de N. Porém, a conta ainda não considera perdas, frete, custo de aplicação, necessidade de enxofre ou eventual diferença de resposta agronômica. Se o sulfato de amônio suprir uma deficiência de enxofre que precisaria ser corrigida separadamente, parte do custo pode ser compensada pelo nutriente adicional. Se a ureia for aplicada em uma condição de alto risco de volatilização, o menor preço inicial pode não representar o menor custo por unidade de N efetivamente aproveitada.
O ideal é comparar o custo total do programa de adubação, mantendo a dose de N equivalente e considerando os nutrientes adicionais e o manejo necessário.
Qual escolher em situações práticas?
Quando o custo por unidade de N e a logística pesam mais: a ureia costuma ser competitiva pela concentração elevada de nitrogênio. Para aproveitar essa vantagem, é importante reduzir o risco de volatilização com manejo adequado, especialmente na aplicação superficial.
Quando o risco de volatilização precisa ser reduzido: nitrato de amônio ou sulfato de amônio podem ser alternativas, conforme o pH, a umidade, o custo e as necessidades da cultura. A decisão deve considerar também o risco de lixiviação do nitrato.
Quando a lavoura precisa de nitrogênio e enxofre: o sulfato de amônio merece atenção, desde que a análise e a recomendação indiquem demanda pelos dois nutrientes. O teor de enxofre do produto precisa entrar na conta para evitar aplicações desnecessárias.
Quando o manejo depende de uma janela curta de aplicação: a escolha precisa considerar a previsão do tempo, a possibilidade de incorporação ou irrigação e o risco de perdas. Se a operação não puder ser realizada em condições adequadas, pode ser mais importante rever o momento e a forma de aplicação do que simplesmente trocar a fonte.
O que conferir antes de comprar
Antes de definir o fertilizante, confira a recomendação de nitrogênio para a cultura e o estádio de desenvolvimento. Verifique a análise de solo, o pH, a necessidade de enxofre e o histórico de produtividade. Compare o custo por quilograma de N e o custo por hectare, incluindo frete e distribuição.
Depois, avalie como o produto será aplicado: a lanço, incorporado, em faixa ou via fertirrigação, quando a fonte e o sistema forem compatíveis. Considere a previsão do tempo e o manejo necessário para reduzir perdas. Em sistemas de maior valor ou quando há dúvida sobre a resposta, faixas comparativas na própria área podem ajudar a avaliar a eficiência econômica das fontes em condições reais.
A adubação nitrogenada não se resume a escolher o fertilizante com maior concentração ou menor preço. O resultado depende de ajustar fonte, dose, momento e local de aplicação à demanda da cultura e às condições do solo.
Orientação: antes de comprar, faça a conta do custo por quilograma de N e confira se a área também precisa de enxofre. Depois, escolha a fonte considerando o risco de volatilização, a possibilidade de chuva ou irrigação e o sistema de aplicação. A melhor opção é aquela que fornece o nutriente necessário com eficiência agronômica e retorno econômico, nas condições reais da lavoura.
Referências
SANTOS, W. de M. et al. (2020). “Volatilização de amônia e produção de milho fertilizado com diferentes fontes de nitrogênio no semiárido brasileiro”. Pesquisa Agropecuária Brasileira, 55, e01036. DOI: 10.1590/S1678-3921.pab2020.v55.26738.
RECH, I.; POLIDORO, J. C.; PAVINATO, P. S. (2017). “Aditivos incorporados à ureia para reduzir perdas de nitrogênio após aplicação ao solo”. Pesquisa Agropecuária Brasileira, 52(3), 194–204. DOI: 10.1590/S1678-3921.pab2017.v52.23748.
POWLSON, D. S.; DAWSON, C. J. (2022). “Use of ammonium sulphate as a sulphur fertilizer: Implications for ammonia volatilization”. Soil Use and Management. DOI: 10.1111/sum.12733.
“Technologies for Fertilizers and Management Strategies of N-Fertilization in Coffee Cropping Systems to Reduce Ammonia Losses by Volatilization” (2022). Plants, 11(23), 3323. Consultar artigo.
EMBRAPA. Adubação mineral — informações sobre fontes nitrogenadas e concentrações de N e S. Consultar material técnico.