Fertirrigação do tomateiro exige ajuste por fase da cultura
Parcelamento de nutrientes pode melhorar o aproveitamento dos fertilizantes, mas a recomendação depende da análise de solo, da irrigação e da produtividade esperada
O manejo da adubação do tomateiro exige atenção ao desenvolvimento da planta ao longo do ciclo. Uma estratégia utilizada na produção irrigada é dividir o fornecimento de nutrientes entre a adubação de plantio e a fertirrigação, técnica que aplica fertilizantes junto com a água de irrigação. O objetivo é acompanhar a demanda da cultura, reduzir perdas e manter o fornecimento de nutrientes durante o crescimento, o florescimento e o enchimento dos frutos.
A Embrapa destaca que a definição das doses de fertilizantes deve partir da análise química do solo. A avaliação dos teores de fósforo, potássio, cálcio, magnésio e matéria orgânica, entre outros parâmetros, ajuda a determinar quanto precisa ser fornecido e quais correções devem ser feitas antes do plantio. A produtividade esperada também influencia o planejamento nutricional.
Adubação muda conforme o desenvolvimento da planta
Nos primeiros dias após o transplantio, o tomateiro precisa restabelecer o sistema radicular e se adaptar ao solo. Por isso, o manejo da água merece atenção especial. Uma proposta de fertirrigação pode prever inicialmente a irrigação apenas com água, evitando a aplicação precoce de uma solução concentrada de fertilizantes junto às raízes recém-transplantadas. A duração dessa etapa, porém, deve considerar as condições do solo, a qualidade da água e o estado das mudas.
Na fase de enraizamento e crescimento vegetativo, o fósforo participa dos processos de transferência de energia e do desenvolvimento das raízes. Fontes solúveis, como o fosfato monoamônico (MAP), podem integrar o programa nutricional, desde que a dose seja calculada de acordo com a disponibilidade do nutriente no solo e a necessidade da cultura.
Com o avanço do ciclo e o início do florescimento, o fornecimento de nitrogênio, fósforo, potássio e magnésio precisa acompanhar o crescimento da planta e a formação dos frutos. O nitrogênio contribui para a formação de folhas e hastes, enquanto o magnésio participa da composição da clorofila e da atividade fotossintética. O equilíbrio é importante: tanto a falta quanto o excesso de nutrientes podem prejudicar o desenvolvimento e o resultado comercial da lavoura.
Potássio e cálcio ganham importância na frutificação
Durante o enchimento dos frutos, o potássio tem papel importante na regulação hídrica, no transporte de açúcares e no desenvolvimento dos tomates. Por isso, programas de fertirrigação frequentemente ajustam o fornecimento desse nutriente conforme a evolução da demanda da planta.
O cálcio também merece atenção. Ele participa da estrutura das paredes celulares e contribui para a integridade dos tecidos vegetais. Quando o transporte do elemento até os frutos é insuficiente, pode ocorrer a podridão apical, distúrbio fisiológico conhecido como “fundo preto”, caracterizado pelo escurecimento e pela necrose na extremidade oposta ao pedúnculo.
O problema, entretanto, não depende apenas da quantidade de cálcio aplicada. Oscilações na umidade do solo, salinidade elevada, danos às raízes e excesso de nitrogênio também podem contribuir para a ocorrência do distúrbio. Assim, aumentar a adubação com cálcio sem corrigir falhas de irrigação ou outros fatores de manejo pode não resolver o problema.
Uma estratégia possível é utilizar fontes de cálcio, como o nitrato de cálcio, de acordo com a necessidade nutricional e a compatibilidade dos fertilizantes empregados. A redução ou retirada da ureia na fase de enchimento dos frutos pode fazer parte de um programa específico, mas não deve ser tratada como regra universal: a quantidade e a forma de fornecimento do nitrogênio precisam considerar a análise de solo, a resposta das plantas e o equilíbrio nutricional.
Mistura de fertilizantes exige cuidado
Outro ponto importante é a compatibilidade entre os produtos utilizados na fertirrigação. O nitrato de cálcio não deve ser misturado em uma mesma solução concentrada com fertilizantes que fornecem sulfatos ou fosfatos, como o sulfato de magnésio e o MAP, pois podem ocorrer precipitações que formam sólidos insolúveis e favorecem o entupimento dos emissores de irrigação.
A separação dos produtos em tanques diferentes, com manejo adequado da injeção, ajuda a reduzir esse risco. A operação também precisa considerar a qualidade da água, a concentração das soluções e a limpeza periódica do sistema. Uma fertirrigação bem planejada depende não apenas da escolha dos nutrientes, mas também da uniformidade com que a água e os fertilizantes chegam às plantas.
Salinidade e adubação orgânica também entram no planejamento
A aplicação frequente de fertilizantes pode elevar a concentração de sais na região molhada pela irrigação. Quando a salinidade aumenta, a planta encontra mais dificuldade para absorver água, mesmo quando o solo está úmido. Por isso, acompanhar a condutividade elétrica da água e do solo ou da solução extraída da região radicular pode ajudar a identificar riscos antes que ocorram perdas de crescimento e produtividade.
Não existe, contudo, um único limite de condutividade elétrica que sirva para todas as situações. A interpretação depende do método utilizado para medir a salinidade, das condições da área, da fase de desenvolvimento e da sensibilidade da cultura. O monitoramento deve ser feito com critérios técnicos e associado à avaliação da irrigação e da drenagem.
A adubação orgânica, com esterco curtido ou composto, também pode contribuir para o manejo do solo, fornecendo nutrientes e matéria orgânica. A quantidade aplicada, porém, precisa considerar a composição do material, seu grau de maturação e a contribuição de nutrientes, especialmente nitrogênio, fósforo e potássio. Doses definidas apenas pelo número de quilos por cova podem levar a excessos ou desequilíbrios quando não são relacionadas à área cultivada e às características do solo.
Análise de solo define a recomendação final
Embora o parcelamento dos nutrientes seja uma ferramenta importante, uma receita de fertirrigação não deve ser aplicada automaticamente em diferentes lavouras. Uma área com fósforo baixo pode exigir uma estratégia de adubação de plantio diferente daquela utilizada em um solo com teores adequados. Da mesma forma, a quantidade de potássio necessária depende da disponibilidade inicial, da produtividade esperada e do histórico de adubação.
Para transformar um programa nutricional em recomendação de campo, o produtor deve reunir a análise química do solo, a análise da água de irrigação, as informações sobre os fertilizantes disponíveis e a meta de produção. O acompanhamento do desenvolvimento das plantas e, quando indicado, a análise foliar ajudam a verificar se o manejo está atendendo à demanda da cultura.
A orientação central é ajustar as doses e o parcelamento à realidade de cada área. A fertirrigação pode tornar o fornecimento de nutrientes mais preciso, mas seus resultados dependem da qualidade da recomendação, da uniformidade da irrigação e do monitoramento contínuo do cultivo.
Sugestão de matérias para aprofundamento:
Embrapa — Fertilidade do solo e nutrição de plantas no tomate tutorado.
Embrapa — Irrigação do tomateiro para processamento.
Embrapa — Irrigação do tomate de mesa