Agricultura

Dia do Agrônomo: a próxima década já começou

Em 12 de outubro, a homenagem à profissão também é um convite à atualização: inteligência artificial, robótica e agricultura digital estão mudando o campo, mas a ciência agronômica continua no centro das decisões.

Redação Agriconline
Equipe editorial
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Em 12 de outubro, a homenagem à profissão também é um convite à atualização: inteligência artificial, robótica e agricultura digital estão mudando o campo, mas a ciência agronômica continua no centro das decisões.

O calendário marca o Dia do Engenheiro-Agrônomo em 12 de outubro, data que lembra a regulamentação da profissão no Brasil, em 1933. Mais de nove décadas depois, o desafio continua ligado à produção de alimentos, à conservação dos recursos naturais e à viabilidade econômica das propriedades. A diferença é que o profissional precisa fazer isso em um ambiente tecnológico e comercial que muda cada vez mais rápido.

A segunda metade dos anos 2020 já começou. Até 2030, novas ferramentas devem ganhar espaço no campo, os sistemas de produção terão de responder a pressões climáticas e econômicas e o acesso a dados será cada vez mais importante para orientar decisões. Para o agrônomo, a questão não é escolher entre tradição e tecnologia. É saber o que merece ser preservado, o que precisa ser atualizado e como transformar conhecimento em resultado para quem produz.

A tecnologia deixou de ser promessa

Inteligência artificial, softwares de gestão, imagens de satélite, sensores, máquinas autônomas e robôs já fazem parte do desenvolvimento da agricultura digital. Algumas soluções estão consolidadas em operações específicas; outras ainda enfrentam limitações de custo, conectividade, validação em campo e adaptação às diferentes realidades das propriedades.

A Embrapa descreve a agricultura de precisão como uma estratégia que reúne dados sobre espaço, tempo, plantas e animais para melhorar as decisões de manejo. Na prática, isso significa deixar de tratar toda a lavoura como se fosse uniforme. Mapas de produtividade, imagens e análises de solo podem ajudar a identificar diferenças dentro de um mesmo talhão e orientar intervenções mais precisas.

Pense em uma área de soja com manchas de desenvolvimento irregular. A resposta imediata pode ser aumentar a adubação ou aplicar um produto em toda a área. Mas o problema pode estar relacionado à compactação, à drenagem, à fertilidade, a nematoides ou a falhas de estabelecimento. O uso combinado de dados, observação de campo e diagnóstico agronômico ajuda a separar essas hipóteses antes de gastar dinheiro com uma intervenção que talvez não resolva a causa.

A inteligência artificial pode acelerar a análise de imagens, organizar históricos, detectar padrões e apoiar previsões. Isso não transforma automaticamente uma recomendação em uma decisão correta. A qualidade do resultado depende dos dados utilizados, da validação do sistema e da capacidade do profissional de interpretar a resposta dentro das condições reais da lavoura.

O mesmo raciocínio vale para robôs e máquinas autônomas. Eles podem executar tarefas repetitivas, monitorar áreas e aumentar a precisão de determinadas operações. Ainda assim, precisam ser avaliados conforme o cultivo, a escala da propriedade, a disponibilidade de assistência técnica e o retorno econômico. Adotar tecnologia sem conhecer o problema é apenas trocar uma despesa conhecida por outra menos previsível.

O agrônomo não vai competir com a ferramenta, mas precisará saber usá-la

Uma das mudanças mais importantes para a profissão está na forma de trabalhar com informação. Parte das tarefas de organização, consulta, elaboração de relatórios e interpretação preliminar já pode ser apoiada por softwares e inteligência artificial. Isso aumenta a importância de competências que não se resumem a operar uma plataforma: formular boas perguntas, verificar fontes, reconhecer limitações e assumir responsabilidade técnica pelas recomendações.

Um agrônomo que utiliza IA para organizar dados de uma lavoura pode ganhar tempo. Mas precisa conferir se a resposta considera a cultura, o estádio de desenvolvimento, o histórico da área, a análise de solo, o clima e as condições de aplicação. Uma resposta bem escrita não é necessariamente uma resposta agronomicamente correta.

A atualização profissional, portanto, não precisa começar pela compra de equipamentos caros ou pela assinatura de várias plataformas. Pode começar com uma rotina simples: escolher uma ferramenta que resolva um problema recorrente, testar seu desempenho em situações conhecidas e comparar os resultados com medições de campo. Se o sistema não melhora a qualidade da decisão, reduz o tempo de trabalho ou ajuda a evitar perdas, a adoção precisa ser revista.

Esse cuidado também vale para veículos elétricos, drones e robôs. O fato de uma tecnologia existir comercialmente não significa que ela seja adequada a toda propriedade. O profissional preparado não é aquele que adota tudo primeiro, mas aquele que consegue identificar quando a inovação faz sentido, quanto custa, quais riscos envolve e como medir seu resultado.

Ciência é o que sustenta a autoridade profissional

Em um ambiente com excesso de informação, a autoridade do agrônomo não pode depender apenas de presença nas redes sociais, de uma boa apresentação ou de familiaridade com ferramentas digitais. Ela precisa ser construída com conhecimento verificável, experiência de campo, transparência e capacidade de explicar por que determinada recomendação deve funcionar — e em quais condições pode falhar.

A pesquisa agropecuária brasileira demonstra o peso desse trabalho. O desenvolvimento de sistemas de produção adaptados aos solos e ao clima tropical, o melhoramento genético, a correção da acidez, o manejo integrado de pragas e doenças e a evolução das práticas de conservação do solo foram construídos por meio de pesquisa, experimentação e validação. Não são resultados de uma solução isolada, mas de décadas de trabalho científico e técnico.

Esse histórico ajuda a entender por que a próxima etapa da agricultura não será construída apenas com máquinas mais modernas. Será necessário combinar genética, fertilidade, água, clima, sanidade, mecanização, gestão e mercado. A tecnologia pode ampliar a capacidade de analisar essas variáveis; o conhecimento agronômico continua sendo necessário para interpretá-las em conjunto.

A autoridade também se constrói quando o profissional sabe reconhecer limites. Se uma recomendação depende de um ensaio ainda não validado na região, isso precisa ser dito. Se um produto não apresentou resposta consistente, o resultado deve ser comunicado. E se uma nova ferramenta melhora a operação, mas não aumenta a rentabilidade, essa diferença precisa aparecer na avaliação.

Para o produtor, confiança não é promessa de resultado garantido. É ter ao lado alguém capaz de explicar os critérios da decisão, acompanhar o que aconteceu depois da aplicação e ajustar o manejo com base nas evidências.

Produzir alimentos continuará sendo uma responsabilidade estratégica

A segurança alimentar depende de mais do que produzir grandes volumes. Envolve disponibilidade, acesso econômico, qualidade, estabilidade do abastecimento e redução das perdas. Ainda assim, a produtividade agrícola e a eficiência no uso de recursos são componentes importantes para atender à demanda por alimentos sem ampliar desnecessariamente a pressão sobre áreas naturais.

O relatório OECD-FAO Agricultural Outlook 2024–2033 projeta mudanças no consumo, na produção e no comércio agropecuário ao longo da próxima década. O documento também destaca que reduzir pela metade as perdas e o desperdício de alimentos poderia diminuir as emissões globais de gases de efeito estufa relacionadas à agricultura e à alimentação em cerca de 4% e reduzir em 153 milhões o número de pessoas subalimentadas até 2030, segundo as estimativas apresentadas no relatório.

Esse dado amplia a responsabilidade da profissão. Produzir mais é importante, mas evitar perdas na lavoura, no armazenamento, no transporte e no consumo também faz parte da resposta. O agrônomo pode contribuir com manejo fitossanitário, colheita no momento adequado, conservação do solo, armazenamento, rastreabilidade e planejamento produtivo.

Também é preciso reconhecer que a tecnologia, sozinha, não resolve a fome. Renda, infraestrutura, conflitos, políticas públicas, logística e acesso aos alimentos interferem diretamente na segurança alimentar. A contribuição da agronomia está em melhorar a eficiência e a resiliência dos sistemas produtivos, com base científica e atenção às condições sociais e econômicas de cada região.

Cinco frentes para chegar a 2030 mais preparado

1. Atualizar a base técnica antes de correr atrás da novidade. Fertilidade do solo, fisiologia vegetal, fitopatologia, entomologia, manejo de água e conservação continuam sendo fundamentos da profissão. A tecnologia muda a forma de trabalhar com esses conhecimentos, mas não elimina sua importância.

2. Aprender a trabalhar com dados. Saber interpretar mapas, planilhas, imagens, sensores e históricos produtivos será cada vez mais útil. Não é necessário dominar todas as ferramentas disponíveis. O essencial é entender o que cada dado representa, como foi obtido e quais decisões pode sustentar.

3. Usar inteligência artificial com senso crítico. Ferramentas de IA podem apoiar pesquisas, relatórios, organização de informações e análise preliminar. Antes de aplicar uma recomendação, confira a fonte, a data, o contexto e a compatibilidade com as condições da propriedade. Informações técnicas e doses devem ser verificadas em referências confiáveis e nas orientações oficiais aplicáveis.

4. Aprender a medir resultado econômico. Uma prática pode melhorar um indicador agronômico e ainda assim não pagar seu custo. O profissional deve acompanhar produtividade, custo por hectare, qualidade do produto, uso de insumos, perdas e margem econômica. Quando possível, comparar áreas tratadas e não tratadas, com repetições e condições semelhantes, ajuda a separar efeito real de variações normais da lavoura.

5. Desenvolver comunicação e capacidade de decisão. Explicar um diagnóstico de forma clara, mostrar os dados que sustentam uma recomendação e reconhecer incertezas são habilidades tão importantes quanto conhecer a tecnologia. O agrônomo precisa traduzir informação técnica em decisões compreensíveis para produtores, equipes, empresas e gestores.

A próxima década exige menos improviso e mais método

A profissão tem espaço para crescer justamente porque os desafios não ficaram menores. O campo precisa produzir com eficiência, enfrentar variabilidade climática, controlar custos, atender a exigências de rastreabilidade e preservar recursos naturais. Ao mesmo tempo, surgem ferramentas capazes de ampliar a capacidade de observação e análise de quem trabalha na agricultura.

O risco é confundir novidade com progresso. Um software não substitui a amostragem bem feita; uma imagem de satélite não explica sozinha a causa de uma falha; um robô não corrige um planejamento inadequado. A inovação gera valor quando responde a uma necessidade concreta e seu resultado pode ser avaliado.

Neste 12 de outubro, valorizar o engenheiro-agrônomo é reconhecer uma profissão que reúne ciência, prática, gestão e responsabilidade pública. O futuro não pertence apenas a quem domina a tecnologia mais recente, nem a quem repete as soluções do passado sem reavaliá-las. Pertence a quem continua aprendendo, testa antes de recomendar e transforma evidência em resultado.

A virada de década não precisa ser encarada como uma ameaça à profissão. Pode ser um prazo útil para rever competências, atualizar métodos e escolher com critério as ferramentas que merecem entrar na rotina. Até 2030, a pergunta mais importante não será quantas tecnologias o agrônomo utiliza, mas quais problemas consegue resolver com elas — e com que resultado para o produtor, para a sociedade e para a produção de alimentos.

Orientação: escolha ainda neste ano uma competência técnica e uma ferramenta digital para aprofundar. Defina um problema real da sua rotina, estabeleça um indicador para avaliar a melhoria e registre os resultados. Uma atualização bem aplicada, medida e repetida vale mais do que acumular ferramentas sem saber o que elas entregam.

Referências

  • Embrapa. — Automação e Agricultura de Precisão: conceitos, aplicações e desafios da transformação digital no campo.

  • Jorge et al. (2024) — Inteligência artificial aplicada na agricultura de precisão e digital. Capítulo técnico publicado no livro Agricultura de precisão: um novo olhar na era digital, com aplicações de IA, imagens de drones e análise de dados agrícolas.

  • OECD-FAO Agricultural Outlook 2024–2033: projeções para mercados agrícolas e alimentares e discussão sobre perdas,

  • Confea — Dia do Engenheiro-Agrônomo: contexto histórico da regulamentação da profissão em 12 de outubro de 1933.

  • Lowenberg-DeBoer et al. (2020) — Economics of robots and automation in field crop production. Revisão sobre economia da automação e robótica em culturas agrícolas, útil para contextualizar oportunidades e limitações de adoção.

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